A opção pelo desemprego

Escreve: Cezar Luiz Müller | Presidente da Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul - AICSul


Ao longo da última campanha para eleger o presidente do Brasil, ouvimos o candidato vencedor garantir que seriam criados dez milhões de empregos em quatro anos caso ele fosse vitorioso. E nós, do setor coureiro, temos uma grande contribuição para dar neste sentido.


O nosso país tem um potencial inigualável no planeta para gerar empregos relacionados ao couro, porque dispomos do maior rebanho comercial de bovinos do mundo e isto gera uma extraordinária disponibilidade interna de peles, no ano passado calculada em 34 milhões de unidades. Então, é importante observar que, a cada milhão de couros, são gerados 13 mil empregos diretos e 39 mil empregos indiretos, caso eles sejam transformados em calçados  ou outros manufaturados para abastecer tanto o mercado interno quanto o internacional. Então, é fácil calcular que o potencial de empregos da cadeia produtiva, utilizando a matéria-prima disponível no país, é superior a 1,5 milhão.

A entidade que tenho a honra de presidir, ao logo de sua história, tem defendido a existência de medidas que tornem interessante agregar mayor valor ao couro. Entre outros motivos para erguer esta bandeira, sem dúvida,

está a geração de empregos. Diante disto, víamos como tranqüila a manutenção da taxa de 9% nas exportações de wet blue, um couro ainda sem nenhum valor agregado e cuja produção não gera muitos postos de trabalho. Não poderia um governo interessado na criação de dez milhões de empregos ir contra uma medida que está estimulando em muito a criação de milhares de vagas nas empresas brasileiras, ainda mais considerando que todos os nossos competidores internacionais protegem a sua matéria-prima couro.

O Brasil exportou quase 60% de seus couros no ano 2000 como wet blue. Então, o governo, em decisão sábia, tomou uma medida para estimular que se agregasse mais valor a uma matéria-prima de grande potencial. A alíquota de 9% nas exportações de wet blue permitiu crescimento de 240%, em apenas três anos, nas exportações brasileiras de couros acabados, com maior valor agregado.

Assim, só se poderia esperar a manutenção de medida tão exitosa. Mas, numa noite de dezembro, a Camex realizou reunião e decidiu que a alíquota será gradualmente reduzida, até desaparecer em 2006. Dá para entender? A explicação é de que as exportações de calçados não cresceram nos últimos anos. Porém, em 2003 houve crescimento de 13% no volume físico e de 7% no monetário nas vendas externas de calçados do Brasil. E isto em um quadro de pouca demanda internacional pelo produto. Nossos competidores europeus, como Itália e Espanha, tiveram retração nos negócios. Até mesmo os chineses pararam com o crescimento que vinham tendo. Além disto, não deve ser considerado como positivo o crescimento das vendas de couros com maior valor agregado, aproveitando o crescente interesse internacional principalmente por couros para estofamento?

Alega-se que a taxação, por limitar a saída de matéria-prima, acaba reduzindo o preço do couro. Porém, isto também não ocorreu. O valor da nossa matéria-prima nos três anos de taxação nas exportações de wet blue foi mais elevado do que nos três anos anteriores. E é bom lembrar que estamos em um mundo globalizado. Matérias-primas seguem preços internacionais e com o couro é a mesma coisa.

Então, a gente fica mesmo perplexo diante da decisão do governo. O fato é que ela sinaliza para uma opção pelo desemprego. Ao invés de olhar para o potencial de 1,5 milhão de empregos, aponta para a condição colonial de vender matéria-prima aos ricos, ficando aqui apenas com a parte que exige menos tecnologia, mais agressiva ao meio-ambiente e que prescinde de muita mão de obra. Porém, temos a esperança de que o governo perceba o quanto podemos realizar para tornar viável a intenção de gerar dez milhões de novos postos de trabalho em quatro anos.

   
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