É tempo de mudar

Escreve: Wayner Machado da Silva, presidente de Sindicouro


Os indicadores de atividade econômica do País já alertavam para as conseqüências nefastas que poderiam vir a ocorrer, caso os integrantes da diretoria do Comitê de Política Monetária Nacional – Copom, continuassem a insistir, de maneira insana e inconseqüente, na manutenção da política de juros altos para o combate à inflação.


Nos primeiros cinco meses do ano, o resultado do PIB – Produto Interno Bruto acusou aquilo que todos temiam: a desaceleração da economia. O crescimento do PIB no primeiro trimestre foi de apenas 0,3%, em comparação ao último trimestre do ano passado, sendo que a indústria, cujo desempenho tem forte ligação com a taxa de juros, registrou queda de 1%. Os indicadores apenas confirmaram a miopia ortodoxa adotada pelo Copom, que, contrariando a tudo a e a todos, vem insistindo durante os últimos 9 meses, em manter uma política monetária interessante apenas para os grandes investidores internacionais. O cenário se apresenta tão alarmista, que o próprio presidente Lula cobrou de sua equipe econômica, medidas urgentes e mais práticas que possam contribuir para a esperada queda dos juros. Não resta dúvida, que essa prática acabou provocando a afluência exacerbada de capitais especulativos externos, atraídos pela alta rentabilidade e pela garantia de pagamento do governo federal, fazendo a taxa de câmbio declinar perigosamente. Apesar do quadro dominante, as exportações no primeiro trimestre ainda apresentaram um bom desempenho e, não fora isto, o PIB teria registrado queda maior, visto que a demanda interna registrou um recuo no consumo das famílias e uma significativa redução nos investimentos públicos e privados. Como se sabe, sem investimentos não haverá crescimento nem emprego. O que é mais preocupante é que as perspectivas não se mostram muito favoráveis a uma inversão desse quadro, pelo menos no curto prazo e a tendência é que ele  venha a se agravar com a desaceleração no ritmo do crescimento das exportações, por força da apreciação do real diante do dólar.

Na indústria, o setor calçadista começa a apresentar os reflexos negativos dessa situação e vem diminuindo drasticamente a atividade com a concessão de férias coletivas. Já são noticiados alguns casos de fechamento de empresas, principalmente do Rio Grande do Sul, que registrou a eliminação de 5.000 postos de trabalho e na cidade de Franca, com a demissão de 4.200 empregados.

Com o custo dos produtos mais alto, influenciado, principalmente, pelo preço dos produtos químicos importados, que não vem acompanhando a queda do dólar e  pelo aumento do custo da mão de obra, que é corrigida pelos índices da inflação passada; com os créditos tributários represados, de ICMS na área estadual e de Pis-Cofins na área federal, cujo montante vem comprometendo a manutenção do capital de giro das empresas, o setor caminha, perigosamente,  para uma perda efetiva de competitividade frente a seus parceiros internacionais. Lamentavelmente, a política monetária mantida pelo Banco Central oferece mais atrativos para os investimentos realizados em papéis financeiros do que para os investimentos comprometidos com a atividade produtiva. Como conseqüência, já estamos convivendo com a redução do consumo interno, com a desatualização tecnológica dos equipamentos industriais e com a eliminação, cada vez maior, de postos de trabalho. A situação é extremamente preocupante. Se quisermos ser competitivos, teremos de ter condição de trabalhar com taxas de juros civilizadas, que permitam o controle do ingresso de capitais internacionais menos especulativos, dando estabilidade ao câmbio real. De que adianta, para nós empresários, que a arrecadação de impostos e o superávit primário batam sucessivos recordes, se não há investimentos públicos em infra-estrutura e em programas sociais?

A nossa capacidade de promover investimentos na cadeia produtiva do couro, que emprega hoje mais de 500 mil pessoas em suas mais de 7 mil empresas no País, está, praticamente, esgotada.  Para colocarmos em marcha essa fabulosa máquina produtiva é indispensável que ocorra um re-ordenamento econômico que consiga recuperar a capacidade de consumo da população; que consiga reduzir a taxa básica de juros a níveis compatíveis com aqueles adotados pelos nossos concorrentes no mercado internacional; que consiga recuperar a capacidade de investir dos empresários e que prepare o País para as tão sonhadas e necessárias reformas. Não podemos mais ser complacentes com o tempo. Vamos cobrar das autoridades competentes medidas sérias que venham de forma preventiva atuar para a solução de problemas e de obstáculos estruturais, impedindo que a inércia não se instale mais uma vez e que tenhamos depois que correr, desesperados, atrás do prejuízo definitivamente consumado.

   

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