Pólos produtores sentem os efeitos do câmbio


As regiões que concentram os pólos fabricantes de calçados sentem diretamente a repercussão da política cambial nas atividades das suas fábricas. Desde o início do ano, o Vale do Sinos, localizado no Rio Grande do Sul e conhecido nacionalmente como o maior pólo calçadista do Brasil - e um dos maiores do mundo – contabilizou 11 mil demissões em 19 municípios. A cidade mais atingida é Sapiranga, onde 15 empresas fecharam, deixando sem emprego 3,8 mil pessoas, correspondendo a 10% do total de trabalhadores.


Os números são do Sindicato dos Sapateiros de Sapiranga e Região. Em algumas cidades do pólo, como Dois Irmãos e Morro Reuter, as empresas estão negociando com os trabalhadores a redução da carga horária de trabalho com o intuito de preservar os empregos.

A desvalorização do câmbio também já causa estragos no maior pólo de fabricação de calçados infantis do País, em Birigüi, no interior de São Paulo. A queda das exportações aumentou a concorrência em um mercado interno sem capacidade para absorver a produção, o que levou pequenas empresas a fechar e obrigou as grandes indústrias a conceder férias coletivas para os trabalhadores. A constatação foi feita pelo Sindicato das Indústrias de Calçados e Vestuário de Birigüi.

Com 90 mil habitantes, Birigüi possui 164 indústrias de calçados, que empregam 19 mil trabalhadores. Em 2004, as exportações representaram 15% da produção — ou cerca de 8,5 milhões dos 60 milhões de pares produzidos durante o ano. A expectativa do setor era ampliar as exportações para 20% em 2005, mas a expansão não deve chegar a 10%. A intenção era aumentar o faturamento com as exportações de US$ 40 milhões em 2003 para US$ 45 milhões em 2004. “Se chegarmos a US$ 30 milhões, podemos agradecer a Deus”, disse Samir Nakad, presidente do sindicato. Segundo ele, as exportações têm destino, sobretudo, para o Mercosul, México, Estados Unidos e Oriente Médio, cujos clientes não querem agora pagar um reajuste de 15% e optam por outros fornecedores, como a China. “Diversas pequenas empresas foram abertas nos últimos dois anos, mas, como têm menos poder fogo, são as primeiras a serem atingidas“, diz Carlos Mestriner, vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) e diretor da Klin.

“Estamos muito apreensivos, pois é possível que nas próximas semanas tenhamos de dar férias coletivas. Também teremos que torcer muito para que essas férias não sejam transformadas em demissões”, afirmou Mestriner. Segundo ele, a situação é causada pela soma da instabilidade cambial com uma política interna de juros altos. A Klin é a maior indústria de calçados de Birigüi, com oito unidades de produção e 4 mil trabalhadores. A expectativa do empresário era fechar as exportações de 2005 em 30% da produção, mas com a crise cambial esse volume será reduzido para 25%. “O primeiro trimestre não foi ruim, mas o segundo está péssimo”, argumentou. Birigüi apenas segue o ritmo do setor calçadista em nível nacional. A queda do dólar deverá causar retração de 20% nas exportações de calçados em 2005.

A indústria de calçados da cidade paulista de Franca exportou 592.133 pares em abril, o que representou uma queda de 20,54% em relação ao movimento de abril do ano passado (745.238 pares). O faturamento caiu 5,12%, na mesma comparação: atingira US$ 11,885 milhões e agora totalizou US$ 11,277 milhões. A forte queda no volume não se repetiu na receita por causa do embarque de calçados de maior valor agregado. Com isso, o preço médio mensal avançou 19,41%, passando de US$ 15,95 para US$ 19,05. De janeiro a abril, as exportações francanas somaram 2.978.875 pares e US$ 53,581 milhões. Foram 3.045.487 pares e US$ 48,910 milhões em igual período de 2004. Os embarques caíram 2,19% e a receita cresceu 9,55%. O preço médio no primeiro quadrimestre atingiu US$ 17,99 e superou em 12% o anterior (US$ 16,06). As informações são do Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca. 

   

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