Calçados: Embarques continuam em queda


As exportações brasileiras de calçados continuam registrando quedas nos embarques. Em agosto, o percentual foi de oito pontos negativos no acumulado dos oito meses do ano. No período, foram exportados 133,3 milhões de pares contra 144,3 milhões de janeiro a agosto de 2004. “É o reflexo da concorrência chinesa”, comenta Heitor Klein, diretor executivo da Abicalçados.


O faturamento, porém, demonstra a evolução do preço médio do calçado brasileiro e o aumento dos embarques para novos mercados, em contraponto com os Estados Unidos, ainda o maior comprador do produto nacional, mas que tem registrado queda no percentual de participação. Nestes oito meses, o setor registrou a entrada de US$ 1,290 bilhão, nove por cento a mais comparativamente ao mesmo período de 2004, quando as divisas somaram US$ 1,19 bilhão.

Os Estados Unidos importaram 50% do total que o Brasil enviou ao exterior nestes oito meses, somando 54 milhões de pares. Foi uma queda de 32% sobre igual período do ano passado, quando os norte-americanos compraram 69,9 milhões de pares. Porém, a performance do faturamento não foi tão negativa, ficando sete por cento a menos no período, resultado do aumento do preço médio, que de US$ 9,91 passou para US$ 11,84. Os Estados Unidos pagaram US$ 642,1 milhão pelas importações deste ano, contra US$ 692,9 milhões de janeiro a agosto de 2004.

Já o Reino Unido, segundo maior mercado brasileiro, registrou aumento tanto nos embarques quando em divisas. Comprou este ano 7,5 milhões de pares, 16% a mais em comparação a aos oito meses de 2004, enquanto o faturamento foi 44% a maior. Os importadores destinaram US$ 119,2 milhões para a compra de calçados no período, contra US$ 82,8 milhões do ano passado.

Itália – Dos países potencias que mais compraram calçados este ano do Brasil, a Itália se destacou. Como passou a importar produtos de maior valor agregado (o preço médio pulou de US$ 5,21 para US$ 12,65) o faturamento teve um salto de 167%. A importação dos 2,3 milhões de pares gerou uma receita de US$ 11 milhões, contra os US$ 29,5 milhões obtidos de janeiro a agosto de 2004. Já o volume manteve-se estável, com um aumento de dez por cento.

O vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ricardo Wirth, acredita que o percentual positivo registrado em agosto nas exportações deve-se ainda a entregas de produtos da estação passada, negociadas no início do ano e, portanto, com o dólar mais valorizado. “Embora tenha havido um crescimento no valor monetário das exportações, tivemos uma nova queda no volume físico”, disse.

Efeito dominó - A cotação da moeda americana em R$ 2,21 registrada dia 30 de setembro, preocupou ainda mais o setor calçadista brasileiro, que já enfrenta a queda sucessiva nos embarques desde o início do ano. Foi o menor valor desde maio de 2001, quando o dólar atingiu R$ 2,19. Heitor Klein, diretor executivo da Abicalçados, o quadro crítico pode começar a atingir todo o País. “Para os exportadores de calçados é uma catástrofe, pois já estão com a rentabilidade zerada. Mas agora outros setores estão sendo atingidos, o que prejudicará seriamente toda a economia brasileira a médio prazo”, observou. O executivo afirma que essa crise é pior que a de 1994. Naquele período, várias empresas tiveram que fechar as portas. “Hoje o real é a moeda mais valorizada do mundo, situação que é agravada pela elevada carga tributária e taxa de juros indecente”, avaliou Klein. A união desses três gargalos da economia brasileira compromete violentamente a formação de preços para exportação e joga por terra a previsão de crescimento para o setor em 2005.

Após tantas expectativas frustradas, o quadro para 2006 ainda é um mistério para Klein. “Não consigo fazer nenhuma previsão, porque há um fator imponderável, que é a capacidade de suprimento dos nossos competidores. Nossa queda poderia ser ainda maior se os países concorrentes oferecessem mais opções de produtos para nossos compradores o que, felizmente, ainda não está acontecendo”, justificou.

Câmbio irreal e custos internos prejudicam exportações

O Brasil precisa superar a contradição pela qual exporta cada vez, mas os exportadores ganham cada vez menos. O alerta foi feito pelo presidente da FIERGS, Paulo Tigre, durante a abertura do 100º Encontro de Comércio Exterior, dia 29 de setembro, na sede da entidade, em Porto Alegre. Para ele, não se discute a importância da exportar e aumentar o fluxo de comércio exterior "mas temos que pensar porque, hoje, colocamos mais produtos no mundo e recebemos menos do que em anos anteriores". O Encomex, realizado por iniciativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, reuniu 2,4 mil pessoas no Teatro do SESI e no Centro de Exposições da FIERGS, durante todo o dia.

Segundo Tigre, a valorização do real e o incremento dos custos internos da produção são a causa do problema. "Nos últimos 12 meses, a apreciação da moeda brasileira atingiu 21% em relação a uma cesta de moedas dos 16 principais parceiros comerciais brasileiros", apontou ele, reivindicando uma sinalização da política econômica capaz de corrigir a relação mais exportações/menos rentabilidade. "Isso é fundamental para que alcancemos novos patamares de competitividade, incluindo o câmbio e o ''custo Brasil''".

"O Brasil precisa desenvolver uma cultura exportadora que coloque o mercado externo como um objetivo permanente e aprimore a capacitação das empresas, particularmente das pequenas e médias, para as atividades internacionais", defendeu ele, citando o Mapa Estratégico produzido pela Confederação Nacional da Indústria. "O engajamento das empresas de menor porte no comércio exterior definirá o futuro econômico do País em função de nossas características produtivas".

O presidente da FIERGS observou que o mercado interno brasileiro também deve ser visto como uma das grandes riquezas nacionais, que precisa ser preservada e ampliada. "Para isso, o Governo tem que impedir de um lado o ingresso de artigos e itens à margem dos regramentos legais vigentes e de outro estar atento às barreiras não-tarifárias que de tempos em tempos são lançados sobre produtos brasileiros sem o mínimo amparo técnico ou bom senso". 

   

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