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800 pessoas sem emprego Entre as cinco maiores empresas de sapatos do mundo, a Azaléia mantém inaugurações de unidades no Nordeste, mas fecha fábrica especializada em produção de tênis em São Sebastião do Caí. GÉSSICA TRINDADE/ Vale do Sinos/Casa Zero Hora Jalecos incendiados no pátio da fábrica, abraços comovidos e muito choro. Os 800 funcionários do grupo Azaléia demitidos ontem da unidade fabril de São Sebastião do Caí, que já existia há 25 anos, abandonaram seus postos revoltados e surpresos, a 20 dias do Natal. Os portões do prédio devem ser reabertos hoje, das 8h às 18h, para a derradeira despedida. Nesse horário, serão assinadas todas as rescisões contratuais na unidade de uma gigante do setor, uma das cinco maiores no mundo, que alega a seus empregados ter sido atingida pela política cambial e pelos conseqüentes obstáculos às exportações. Responsável pela comunicação institucional do grupo e emissário do comunicado de fechamento da fábrica, Jair Kievel teve a voz abafada ontem à tarde pelos brados: - Britto, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver - em alusão a Antonio Britto, ex-governador do Estado e atual diretor-presidente do grupo. Exaltados pelo encerramento repentino das atividades quando iniciavam o expediente de trabalho, às 14h49min, os funcionários chegaram a jogar-lhe jalecos, enquanto Kievel tentava explicar no microfone que a unidade operava há um ano e meio em déficit. Especializada na produção de tênis das marcas Olympikus e Asics, teria a venda afetada pela concorrência asiática. No pátio, os funcionários conjecturavam que os investimentos no Nordeste, como as duas fábricas que vão ser oficialmente inauguradas ainda este ano em Sergipe (veja na página 30), seriam a origem do fechamento. - Até sexta-feira, a diretoria negava, nos dizia que era só boato - desabafou o cortador de couro Geroni Rodrigues de Moraes, 39 anos, 12 deles na Azaléia, com lágrimas nos olhos. A queda no volume de exportações de calçados no país, de janeiro a outubro, chegou a 10%. No ano passado, haviam sido embarcados US$ 176,1 milhões de pares. Neste ano, apenas US$ 158,2 milhões de pares cruzaram as fronteiras rumo a outros países. A invasão do produto chinês, indiano, taiwanês e coreano, inicialmente em São Paulo e agora nos demais Estados, representa risco de perda de competitividade também no mercado interno. - Se tinha uma empresa que eu jamais pensei que fecharia era a Azaléia. Estou há três dias sem dormir desde que comecei a ouvir os boatos. Era a empresa que mais empregava na cidade - comentou o presidente do sindicato dos trabalhadores na indústria de calçados local, Valdir Raimundo Ramos. A Azaléia chegou a representar até o ano passado 40% do retorno do ICMS do município. Desde o fechamento de outra unidade, há seis meses, esse percentual despencou para os 30%. Sonhos de industriária desaparecem com rescisão Na época, o impacto social foi restrito, pois o quadro funcional acabou remanejado entre a unidade restante de São Sebastião do Caí e a do município vizinho de Portão. - Estou arrepiada, sempre vesti esta camiseta. Fiquei sem chão, desde adolescente trabalhava aqui. Todos os meus sonhos eu alimentava aqui - lastimava a industriária Dilce Janete Cardoso, 33 anos. Trabalho: Britto põe culpa nos chineses Dirigente não esclarece a migração de fábricas para o Nordeste. DIONARA MELO/ Vale do Sinos/Casa Zero Hora Foi segurando o braço direito em um ângulo de 90º por causa das dores decorrentes de uma cirurgia, feita no ombro direito há três semanas, que o diretor-presidente da Calçados Azaléia, Antônio Britto, recebeu a imprensa na sede da empresa em Parobé, para explicar os motivos do fechamento da unidade de São Sebastião do Caí. Britto atribuiu o encerramento das atividades à crise no setor coureiro-calçadista, baseada em quatro fatores: a invasão do calçado chinês, o contrabando, os altos impostos e o câmbio desfavorável. Entretanto, paralelamente ao fechamento de 800 empregos no Vale do Caí, a Calçados Azaléia expandiu seu parque fabril em Sergipe este ano. Quatro unidades foram erguidas nos municípios de Lagarto, Ribeirópolis, Frei Paulo e Carira - as duas últimas com inauguração oficial ainda este ano. A cada vez que era perguntado sobre o motivo da desativação de uma fábrica no Rio Grande do Sul ao mesmo tempo em que outras duas são inauguradas no Nordeste, Britto escapava, alegando que a briga do calçado não é mais Estado contra Estado e sim Brasil versus China. Incentivos fiscais são atrativo irresistível Hoje, a Azaléia mantém apenas cinco plantas no Estado de origem. As outras 23 fábricas estão no Nordeste: cinco em Sergipe e 18 na Bahia. Embora Britto não admita, os incentivos fiscais e a infra-estrutura oferecida pelos Estados são irresistíveis para as empresas. - Comparando o conjunto de impostos e salários, o custo de produção no Nordeste é de 30% a 40% menor do que no Sul. O Projeto Sergipe surgiu há mais ou menos sete anos, e estamos entregando um investimento já feito. Se fôssemos escolher agora onde abrir uma fábrica, a resposta seria em nenhum lugar. O momento não é propício - disse. Para atenuar o impacto gerado pelo fechamento da fábrica em São Sebastião do Caí, a Azaléia garantiu que os desligados serão convidados a ocupar vagas que venham a ser abertas no Rio Grande do Sul e ofereceu aos ex-funcionários a inclusão em programas de retreinamento. As últimas medidas são a manutenção, por três meses, do apoio em casos de emergência médica e uma proposta ao sindicato: recursos para a distribuição de cestas básicas. - Fechamos 800 vagas pelo bem de outros 18 mil empregados - justificou Britto. O impacto da crise na cadeia calçadista, disse Britto, começou a ser sentido há 18 meses, principalmente nas exportações, que representam 20% da produção. A empresa teria deixado de faturar R$ 50 milhões (Zero Hora) |
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