Perdas de 20 milhões de pares 


Os dados mostrados pelos empresários refletem as perdas que os exportadores sofreram desde o início do ano. De janeiro a novembro, foram deixados de embarcar 20 milhões de pares de calçados e no Rio Grande do Sul, principal pólos exportador de calçados, já foram perdidos mais de 13 mil postos de trabalho e fechadas mais de 40 fábricas. Em Franca, interior de São Paulo e principal fabricante de calçados masculinos, estima-se que mais de cinco mil trabalhadores foram demitidos.


As dificuldades dos exportadores foram intensamente divulgadas pelos meios de comunicação do país, após o fechamento de uma unidade da Calçados Azaléia no início de dezembro. A unidade, localizada em São Sebastião do Caí, interior do rio Grande do Sul, tinha 800 funcionários e deixou de produzir dez mil pares de tênis. A reação foi de perplexidade no mercado.

O principal motivo apontado pela direção da empresa é a conjuntura econômica que desvaloriza o dólar frente ao real, tornando os produtos menos competitivos. Além do câmbio, os empresários do setor calçadista argumentam que a concorrência dos importados chineses é desleal e a pirataria dificulta as vendas.

No caso da Azaléia, aquela unidade operava com prejuízo há 18 meses, devido à queda nas exportações e à falta de absorção pelo mercado interno. "O câmbio foi um dos principais fatores", insistiu o presidente da Azaléia, Antônio Britto. Ele aponta que, enquanto os tênis Olimpikus são vendidos a US$ 11 no mercado externo, depois de um reajuste da ordem de 15% nos últimos 12 meses para compensar parte da valorização do real, a China cobra US$ 6 a US$ 7 por um calçado similar. "Estamos exportando empregos para a China", protestou. A fábrica de São Sebastião do Caí produzia cerca de um milhão de pares de calçados. Esse volume representava 10% do total de 10 milhões de tênis confeccionados pela Azaléia.

Reflexos - Outro agravante da perda da competitividade das indústrias calçadistas é que atinge também os fornecedores do complexo, com fabricantes de componentes e curtidores. “Na verdade, andamos junto com o calçado. Se eles caem, caímos também”, enfatiza o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Eduardo Kunst. Conforme ele, o segmento conseguiu manter um nível razoável de vendas nas exportações, mas o mercado interno, devido à crise do calçado, deixou a desejar. “A situação é delicada. Não conseguimos, sequer, ter uma visão planejada para 2006, pois o setor calçadista não projetou nada ainda.”

A queda no volume de calçados exportados foi observada no setor de couro, que, de acordo com a Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (Aicsul), diminuiu em 18% a produção (em volume físico) para exportação, também no acumulado até outubro, comparado com o mesmo período do ano passado.

De acordo com o presidente da Aicsul, Cezar Müller, o setor coureiro, principalmente no Rio Grande do Sul, trabalha muito integrado com o calçadista, portanto, “tudo o que contribui para desacelerar um prejudica os negócios do outro”.

A esperança, segundo Müller, ainda reside numa “mão amiga” do governo. “Os números atuais já começam a preocupar. A partir daí, pode ser que tenhamos mudanças na política econômica brasileira para, pelo menos, uma amenização nessa crise”. 

   

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