Indústria calçadista brasileira ganha espaço na América Latina

Enquanto o volume total exportado caiu 5% desde 2003, os embarques para países latino-americanos subiram mais de 22%. As vendas para as demais regiões caíram 15% no mesmo período.

 


 

Depois de perder espaço nos Estados Unidos, seu principal mercado de exportação, a indústria calçadista encontrou nos países vizinhos uma rota de fuga para a crise que afeta seus negócios nos últimos anos. Enquanto o volume total exportado caiu 5% desde 2003, os embarques para países latino-americanos subiram mais de 22%. As vendas para as demais regiões caíram 15% no mesmo período.

 

Um diferencial da América Latina é a receptividade em relação às marcas brasileiras, ao contrário dos clientes americanos, que optam por colocar suas próprias marcas em produtos importados. Sem esta identidade, os calçados brasileiros estão sendo facilmente substituídos pelos asiáticos, que oferecem preços menores. De acordo com a Abicalçados (associação do setor), a participação dos Estados Unidos na carteira de exportações nacionais caiu de 90% para menos de 50%.

 

"O consumidor americano é muito fiel às grandes marcas locais", diz Cléber de Oliveira, gerente de exportação da Freeway, fabricante de calçados masculinos de couro em Franca (SP). Outro entrave neste mercado é a necessidade de se associar aos grandes distribuidores locais. "Do México para baixo, no entanto, a marca brasileira é muito aceita", afirma.

 

No ano passado, as vendas da Democrata para a região cresceram 30%, chegando a 182 mil pares. A previsão é atingir 210 mil pares este ano. "Em 2007, a América Latina será o maior mercado para a nossa marca em todo o mundo, superando a Europa", diz Marcelo Paludetto, diretor comercial. A participação destas vendas no total de embarques da empresa deve passar de 24% para 35% até 2009.

 

 Assim como no caso da Freeway e da Democrata, grande parte das exportações brasileiras para esta região corresponde a calçados de couro, que se diferenciam dos produtos sintéticos chineses. Segundo Ivânio Batista, consultor da Abicalçados, é mais viável concorrer com os calçados italianos do que com os chineses. "Os produtos de primeira linha estão mais protegidos da concorrência asiática por enquanto", diz.

 

No entanto, fabricantes de calçados sintéticos também têm conquistado seu espaço porque oferecem preços compatíveis com o baixo poder aquisitivo dos consumidores latinos. A Grendene, que produz calçados de plástico injetado, entrou com mais agressividade nestes países em 2005, ao credenciar novos representantes na Venezuela, Colômbia, Bolívia, Chile e Equador.

 

Naquele ano, a região correspondeu por 35% das exportações. A companhia ainda não divulgou os números de 2006, mas a gerente de relações com investidores, Dóris Wilhelm, estima que eles tiveram um aumento significativo. "Adotamos esta estratégia porque os hábitos de consumo, a distribuição de renda e o clima são semelhantes aos brasileiros", afirma.

 

Dona das marcas Ryder, Ipanema e Grendha, a companhia espera concentrar seu crescimento na classe média local, que tem uma demanda de consumo reprimida.

 

O grupo Kiuty, produtor de calçados femininos e infantis em Birigüi (SP), também encontrou nos países vizinhos um alto potencial de compra de seus produtos, feitos de couro sintético. "A aceitação é muito boa, ao contrário do que acontece na Europa", diz Luciana Ramos de Moura Marques, diretora comercial.

 

Para fazer frente aos concorrentes chineses, a solução foi diferenciar ao máximo seus produtos, incluindo enfeites como brilho e pedraria em sua linha feminina. Com este objetivo, a empresa criou uma área de desenvolvimento exclusiva para exportação em 2004. As adaptações elevaram o custo médio por par de US$ 3 para US$ 7.

 

Pensando em atender melhor estes clientes, a gaúcha Bebecê, de Três Coroas (RS), vai antecipar o lançamento de suas coleções a partir deste ano. Com isso, pretende aumentar o tempo disponível para mostrar seus produto e fechar encomendas com os países latinos. "O objetivo é aumentar as exportações em 5% em 2007", afirma o presidente da companhia, Analdo Slovinski Moraes.

 

Para a Sapatoterapia, de Franca, estes clientes provaram ser uma boa opção para compensar a retração no mercado interno. Em 2004, as vendas da empresa no país caíram 40%, principalmente por causa da concorrência chinesa. No mesmo período, as exportações tiveram alta superior a 60%, segundo Daniel Figueiredo, gerente de exportação. Voltada para calçados masculinos, a empresa planeja entrar no segmento feminino devido a pedidos dos novos clientes. "Estamos estudando a contratação de estilistas para esta nova linha", diz.

 

A gerente de exportação Piccadilly, Micheline Grings, afirma que a empresa destina quase 63% das suas vendas externas para a América do Sul, patamar mais elevado que os 58% do ano passado.

 

Os executivos do setor destacam que um dos países com grande potencial é a Colômbia, que já ampliou o consumo de sapatos brasileiros de 922 mil pares em 2003 para 2,6 milhões em 2006. Na semana passada, um grupo de onze empresas brasileiras participou de uma viagem para o país organizada pela Francal para participar de uma feira. "O volume de negócios ainda é pequeno em comparação com as importações totais da Colômbia, que chegam a 35 milhões de pares", diz o consultor da Abicalçados, Ivânio Batista.

 

Fonte: Valor Econômico

 




   

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