A indústria brasileira de calçados – a
terceira maior do mundo no ranking da produção – vem enfrentando a maior
adversidade de sua história. Tendo sobrevivido ao impacto que
representou a implantação do Plano Real em 1994, as exportações do
setor vinham crescendo à média de 17% ao ano, colocando o país no quarto
lugar entre os exportadores a partir de 2004.
Este desempenho está lastreado em uma bem
estruturada cadeia produtiva que confere ao Brasil uma invejável posição
no mercado internacional. O país tem tudo o necessário para a produção
de calçados, desde máquinas, couros (maior produtor mundial) e
componentes, além de presença economicamente importante em mais de dez
Estados da Federação. Mais importante, ainda, é a expressiva e bem
preparada mão-de-obra responsável pela qualidade da manufatura.
Todos estes fatores, que representam notável
oportunidade estratégica (entenda-se a capacidade de geração de empregos
e coleta de divisas, além do pleno e adequado abastecimento da demanda
nacional), vêm encontrando monumental obstáculo na política
macroeconômica brasileira, determinada a eliminar a inflação através da
prática de juros elevados em relação ao mercado internacional. Com a
inundação no mercado brasileiro de investimentos especulativos e a
positiva performance da balança comercial no campo das commodities, o
resultado é que a moeda brasileira apresenta valorização tal que impede
a formação de preços competitivos por parte da indústria exportadora de
manufaturados, exatamente aquela com maior potencial de geração de
empregos.
Em conseqüência, os exportadores de calçados
e de outros setores como móveis e vestuário, que têm em comum o emprego
massivo de mão-de-obra e o pleno abastecimento de insumos no mercado
doméstico, vêm desativando linhas de produção e dispensando levas de
trabalhadores. A prática dos juros elevados não foi acompanhada, como
deveria, de redução correspondente da carga tributária, nem da
flexibilização dos encargos trabalhistas e, muito menos, de ajuste
fiscal.
Agora mesmo, causa impacto no setor e na
sociedade brasileira o anúncio de que a Reichert Calçados, empresa
gaúcha da cidade de Campo Bom, decidiu encerrar as atividades de
produção e exportação de calçados. Empresa líder em seu segmento, com
mais de setenta anos de atividades, figura certamente entre as mais
destacadas do mundo. Foi, por muitos anos, a maior exportadora
brasileira do produto, com mais de vinte unidades fabris espalhadas pelo
Rio Grande do Sul e Ceará. Possui invejável domínio da inteligência
calçadista e irretocável conceito de excelência na gestão empresarial
sendo merecedora, sobretudo, do respeito e consideração de seus pares,
funcionários e fornecedores, especialmente em função da ética com que
sempre pautou suas atividades.
Jamais a Reichert poderia ser acusada de
perecer por falta de competência, porque a decisão não decorreu de um
processo de erros e práticas empresariais inadequadas. Antes, a empresa
encerra as atividades com a plena satisfação de todas as suas obrigações,
numa demonstração inequívoca de responsabilidade empresarial.
Triste, o fato ocorrido com a Reichert expõe
com realismo inatacável os alertas que vêm sendo feitos por todos os
militantes do setor, de empresários a trabalhadores.
Sabe-se que outras empresas com o mesmo
perfil encontram-se em situação semelhante e imagina-se que sejam
forçadas a adotar a mesma medida em futuro próximo, caso medidas
macroeconômicas eficazes não sejam definidas e implementadas com
presteza.
Conselho Diretor da Abicalçados
30/05/2007