Luiz Bittencourt: Indústria do couro ganha mercados e agrega valor

A indústria do couro brasileira foi em busca de novos nichos e hoje, além do segmento calçadista, atende os setores moveleiro e automotivo. Essa diversificação é resultado de um esforço das empresas que foram em busca de novos mercados e estão, de forma gradual e consistente, agregando valor às exportações. As ações estão levando os curtumes a baterem recordes de exportação e devem levar o Brasil a alcançar a liderança mundial de vendas externas em 2015, destaca o diretor executivo do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Luiz Augusto Siqueira Bittencourt.

 


 

Global 21 - O Brasil é, atualmente, um dos maiores exportadores de couro do mundo com um embarque, de 35 milhões de peças em 2006, e segue uma trajetória nitidamente de crescimento. Que fatores levaram a indústria do couro a atingir esta posição?

Luiz Augusto Siqueira Bittencourt - A economia global apresenta-se em aquecimento desde meados dos anos noventa, provocando o aumento de demanda por bens de consumo no mundo. O setor de couro brasileiro se inseriu nesse ambiente favorável e o Brasil se tornou um dos maiores exportadores, perdendo apenas para China, Itália e Estados Unidos da América, segundo levantamento efetuado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

 

Hoje, somos um dos principais players nesse mercado e a expectativa é de alcançarmos a segunda posição em 2010 e a primeira em 2015. A indústria curtidora brasileira continuará sua trajetória rumo à liderança e a alcançará, não há qualquer dúvida. Abundância de matéria-prima é uma vantagem comparativa que, somada à visão e à atitude do empresariado do setor, buscando novos nichos de mercado e promovendo uma constante atualização tecnológica do parque fabril nacional, garantiu a competitividade do couro brasileiro. Isso sem falar na qualificação excepcional da mão-de-obra nacional.

 

G21 - Em couro acabado, no acumulado de janeiro a maio deste ano, as exportações totalizaram US$ 432,17 milhões, contra US$ 334,27 milhões no mesmo período de 2006. O que contribuiu para esse crescimento significativo?

Bittencourt - O setor está gradativamente agregando valor às exportações de couro. Isso é uma vontade do empresariado e é realizado de forma gradual e consistente, com investimentos, modernizações e conquistando a confiança dos diversos mercados. Obviamente, o Programa Brasileiro da Qualidade do Couro, em parceria com o Sebrae Nacional (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), contribuiu largamente para esse resultado.

 

G21 - Quais as principais ações do CICB para estimular as exportações? Quais as principais parcerias?

Bittencourt - O CICB sempre estimulou as exportações de couro, visto que a demanda interna há algum tempo é significativamente inferior à oferta do couro. O setor, por si só, já empreendia esforços para aumentar sua participação no mercado externo, quando surgiu a APEX-Brasil, que se mostrou uma excelente parceira nas ações de promoção comercial. O Sebrae Nacional também tem se mostrado um excelente parceiro para ações de melhoria da qualidade do couro e de divulgação, pela sua capilaridade.

 

Outro parceiro é a ABDI que, como fomentadora da Política Industrial e de Comércio Exterior do governo brasileiro, tem importante contribuição para os planejamentos estratégicos dos diversos setores industriais. Ações que o CICB tem pleiteado com intensidade junto ao governo federal e estimulariam sobremaneira as exportações são a agilização do ressarcimento de créditos na exportação (PIS/COFINS e ICMS) e o retorno ao setor dos recursos arrecadados com o Imposto de Exportação sobre couro wet blue para fins de modernização industrial, capacitação humana e adequação ambiental.

 

G21 - A indústria de couro brasileira nasceu em decorrência da indústria calçadista e de artefatos de couro nacional, mas, atualmente, é nítido um descolamento da produção brasileira e um significativo aumento na participação do mercado internacional. Qual a tendência a seguir?

Bittencourt - Atualmente, pelas divisas geradas, os setores de couro e calçado têm a mesma importância econômica, sendo que o desempenho do setor curtidor está em constante evolução, com perspectiva de ultrapassar o setor calçadista no curto prazo. O segmento curtidor brasileiro é totalmente independente do calçadista, por mérito próprio. O couro, por necessidade decorrente da redução da demanda por parte da indústria calçadista, foi em busca de novos nichos de mercado, tendo se desenvolvido tecnologicamente para atender aos setores moveleiro e automotivo que, hoje, demandam mais de 60% do couro exportado pelo Brasil.

 

O couro restante vai para artefatos, vestuário e calçados. Para a indústria calçadista, que atende o mercado interno, as peles de caprinos e ovinos são importantes e, como não há produção suficiente (a capacidade produtiva é de 12 milhões de peles/ano e a oferta é de 7 milhões de peles/ano) é fundamental que o governo as inclua novamente na Lista de Exceção à TEC, com alíquota de 0%. Essa medida alavancará os curtumes do Norte e Nordeste do Brasil, gerando empregos, renda e impostos.

 

G21 - Recentemente foi firmado um convênio de cooperação técnica entre o CICB e a Organização para o Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas - UNIDO. Qual o significado desse convênio para a indústria do couro brasileira?

Bittencourt - Foi manifestado interesse pela UNIDO, durante o Painel do Couro realizado em Gramado/RS, em maio último, para um acordo de cooperação técnica entre CICB e UNIDO, com o objetivo de repassar técnica, procedimentos e modelos de gestão para melhoria da qualidade do couro para países menos favorecidos. Parece-nos que é o reconhecimento mundial, por um órgão das Nações Unidas, quanto ao sucesso do Programa Brasileiro da Qualidade do Couro, realizado em parceria com o Sebrae. É um orgulho e ao mesmo tempo uma sinalização para o CICB de que, para o setor curtidor brasileiro se manter como global player, é fundamental que continue seu processo de desenvolvimento humano e tecnológico.

 

Fonte: www.global21.com.br

 

Luiz Augusto Siqueira Bittencourt


   

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