A RELEVÂNCIA DOS SISTEMAS DE INFORMAÇÕES GERENCIAIS NA FORMAÇÃO DO PREÇO DE VENDA DA INDÚSTRIA DE CALÇADOS:

UM ESTUDO MULTICASO

 

George Queiroga Estrela, Geraldo Luiz F. Silva e Arturo Rodrigues Felinto

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da

Universidade Federal da Paraíba - email: georgeestrela@uol.com.br

 

1.      INTRODUÇÃO

 

É imperativo, em tempos competitivos como os atuais, que as empresas estejam cientes de que necessitam de informações, seja para avaliarem a sua posição através da verificação da sua eficiência, via indicadores de desempenho e daí situarem-se em relação à concorrência em seu meio, seja para se manterem competitivas, que é condição primária para a sobrevivência da empresa moderna.

 

Assim sendo, empresas que se utilizam de bases de dados ou mesmo de sistemas de informações mais estruturados, como ferramenta de suporte às decisões e como instrumento auxiliar na avaliação de ambientes produtivos, devem mantê-los em perfeita sintonia com o seu planejamento. Sobretudo quando essa plataforma de informações, que visa respaldar o processo decisório do gestor, tem um caráter contributivo à formação dos preços de venda na indústria de calçados, onde a competitividade tem um viés expressivamente acirrado.

 

Neste contexto, a correta formação de preços de vendas é questão fundamental para a sobrevivência e o crescimento auto-sustentado das empresas, independentemente de seus portes e de suas áreas de atuação. Somente através de uma política eficiente de preços, as empresas poderão atingir seus objetivos de lucro, crescimento a longo prazo, desenvolvimento de funcionários, atendimento qualificado a seus clientes, etc. (ASSEF, 1997).

 

2.      SISTEMAS DE INFORMAÇÕES GERENCIAIS

 

Segundo OLIVEIRA (1992), sistema de informações gerenciais é o processo de transformação de dados em informações que são utilizadas na estrutura decisória da empresa e que proporcionam a sustentação administrativa para otimizar os resultados esperados.

 

Sistema de informação é atualmente, tanto do ponto de vista acadêmico como de suas aplicações no mundo dos negócios, na opinião de diversos autores, um assunto da maior relevância e tem sido considerado como um dos fatores mais responsáveis pelo sucesso das organizações, seja em nível de sobrevivência, seja na obtenção de maior competitividade nas respectivas indústrias. Em outras palavras, a informação está se tornando a mercadoria mais importante da economia contemporânea.

 

Ressalte-se a necessidade de que tais informações sejam confiáveis, relevantes e disponíveis em tempo hábil, para proporcionarem decisões corretas. Nesse aspecto, deve ser considerado o valor efetivo da informação, que pode ser resultante dos seguintes fatores: a) do impacto que a informação provoca nas decisões dos executivos; b) da utilidade dessa informação, tendo em vista o seu tempo de utilização pela empresa.

 

3.      ESTRATÉGIAS DE FORMAÇÃO DE PREÇO

 

O processo de fixação de preço é atribuição extremamente espinhosa por depender de um número considerável de variáveis, onde as mesmas nem sempre fazem parte de decisão interna da organização, ficando esta a merecer um planejamento consubstanciado em informações estratégicas de mercado (demanda, oferta e concorrência) e que possa refletir os objetivos da instituição.

 

Segundo o Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo – CRC-SP (1997), o planejamento para fixação de preço passa necessariamente por linhas que:

 

·        Proporcionem a longo prazo o maior lucro possível;

·        Possibilitem atender as vendas desejadas daquele preço;

·        Permitam a otimização da capacidade produtiva;

·        Permitam a otimização do capital investido;

·        Analisem a capacidade e a disponibilidade de pagar do consumidor;

·        Avaliem a qualidade/tecnologia do produto em relação às necessidades do mercado consumidor;

·        Verifiquem a existência de produtos substitutos a preço mais vantajosos;

·        Estabeleçam-se níveis de produção e/ou vendas que se pretendem alcançar;

·        Defina-se o mercado de atuação do produto;

·        Monitore-se o controle de preço imposto pelos órgãos governamentais;

·        Calculem-se os custos e despesas de fabricação;

·        Gerenciem-se os ganhos e as perdas de fabricação do produto.

 

Dado o grande número de variáveis a serem consideradas na hora da fixação do preço, é comum que cada entidade desenvolva o seu próprio mecanismo, norteada a partir das informações internas e respaldada nas constantes pesquisas externas; com isso, a identificação e a quantificação da influência de cada uma dessas variáveis possibilitam a que as empresas minimizem o risco de tomar decisões num ambiente de incertezas.

 

3.1. DETERMINAÇÃO DO PREÇO DE VENDA

 

A formação do preço de vendas exige de seus gestores um gerenciamento participativo nos diversos estágio de processamento (produção/oferta/demanda) de um produto.

 

De modo geral, para se calcular o preço de venda, deve o administrador responsável por esta área observar não apenas o custo exaustivamente analisado e determinado como também o comportamento externo, interpretado em função dos seguintes fatores:

 

a)   Preços dos concorrentes;

b)  Necessidades do mercado e capacidade de oferta;

c)   Compatibilização dos preços pretendidos com os do mercado;

d)  Pressão dos preços de mercado versus custos e lucros pretendidos;

e)   Instituição do preço conveniente;

f)    Formação de preços baseados em custos.

 

Sabe-se que o preço obtido a partir do custo é uma referência valiosa para comparar com o preço de mercado e determinar a conveniência, ou não, de vender o produto pelo preço que o mercado esteja disposto a pagar.

 

Um sistema de formação de preços relaciona-se diretamente com informações de custo e delas depende. Para que o sistema de formação de preços seja desenvolvido, há a necessidade de informações precisas, detalhadas e em tempo hábil; do custo, seus elementos, composição e tratamento, para que as diversas variáveis de ordem econômica sejam corretamente consideradas e a decisão seja de boa qualidade (BERNARDI, 1996).

 

Em nível de Brasil, foi constatada a priorização das ações das empresas, objetivando a redução de custos e o aumento da produtividade, de acordo com a pesquisa efetuada pela empresa de consultoria Price Waterhouse – Brasil em 1995 (ver gráfico 1, apud ALLORA&GANTZEL, 1996).

 

 

 


GRÁFICO 1 – Constatação da Priorização das Ações das Empresas Brasileiras

Fonte: Pesquisa da empresa de consultoria Price Waterhouse – Brasil, 1995.

 

A importância conferida a custos não está no fato de esta atividade ter-se tornado mais importante do que as demais existentes (afinal, custos é uma atividade-meio e não uma atividade-fim), mas no uso das informações de custos (ALLORA&GANTZEL, 1996).

 

4.      CARACTERIZAÇÃO DA INDÚSTRIA

 

A indústria calçadista caracteriza-se por desempenhar uma atividade industrial que tem como produto final o resultado de uma linha de montagem. Os mais diversos materiais são combinados através de operações mecânicas para a fabricação do calçado (FLORES, 1995).

 

O setor calçadista é composto por cerca de 4 mil empresas, gerando 260 mil empregos. Com uma produção avaliada em 600 milhões de pares/ano, 70% destinados ao mercado interno e 30% à exportação, com faturamento de US$ 8 bilhões/ano. O Brasil está entre os 10 maiores produtores de calçados do mundo representando 3% do mercado mundial (MICT, 1997).

 

A maioria das empresas de calçados está permanentemente atenta às tendências tecnológicas, de produtos e de processos. As empresas produtoras de calçados estão distribuídas por todo o País, em sua maior parte em unidades estratégicas de negócios, de acordo com os nichos de mercado existentes, de forma a facilitar o acesso aos clientes, melhor distribuição e assistência técnica. Atualmente, o fator determinante para a escolha da região onde serão instaladas tais empresas são os incentivos fiscais e a abundância de mão-de-obra (barata), como, por exemplo, a região Nordeste, que vem se tornando bastante atrativa para novos empreendimentos (SILVA, 2000).

 

5.      ESTUDO MULTICASO

 

As empresas objeto de estudo trabalham com fabricação de calçados, artefatos de couros e materiais sintéticos. Situadas no Estado da Paraíba, o universo da pesquisa totalizou 14 empresas.

 

5.1. DIAGNÓSTICO DAS EMPRESAS

 

As empresas estudadas se classificam atualmente, como empresas de pequeno e médio porte do setor calçadista da Paraíba, estando focalizadas na confecções de calçados masculino, feminino, esportivos, com uma média de aproximadamente de 30 a 100 empregados (SILVA, 2000).

 

O processo de produção do calçado é do tipo intermitente. As empresas adotam um Planejamento e Controle da Produção – PCP – tradicional, com uma estrutura organizacional relativamente simples: um departamento administrativo que cuida da administração geral e das vendas e um departamento produtivo, que abrange a programação da produção, as atividades produtivas, o controle de qualidade e a expedição.

 

A comercialização está voltada especificamente para o mercado nacional. O destino dos calçados no mercado nacional se direciona às regiões Norte, Sudeste, Centro-Oeste, com uma maior representatividade na região Nordeste.

 

6.      GESTÃO FINANCEIRA DAS EMPRESAS ESTUDADAS

 

De acordo com TUBINO (1997), a função financeira está encarregada de administrar os recursos de capital e alocá-los onde forem necessários. Em relação às empresas estudadas, a gestão financeira do setor apresentou-se como a de maior preocupação em nível de significância.

 

6.1. GERENCIAMENTO DOS CUSTOS

 

A parte mais preocupante da gestão financeira, verificada através da pesquisa, mostra que 64% das empresas não dispõem de um sistema de controle de custos estruturado (veja gráfico 1).

 

 


GRÁFICO 1 – Sistema de Controle de Custos

Fonte: Pesquisa direta.

 

Com relação às empresas que disseram ter um sistema de custos, ou seja, 36% do universo pesquisado, apresentaram as seguintes informações utilizadas no sistema de controle de custos, como: perdas de produção; perdas ocasionadas por materiais secundários; depreciação de máquinas e equipamentos. Todos esses itens são componentes do cálculo dos custos de produção, embora sendo um sistema ainda não informatizado.

 

64% das empresas estudadas enfatizaram não existir um sistema de custos estruturado; elas adotam empiricamente alguns procedimentos no cálculo de seus custos. Entre eles estão: 22% consideram a depreciação de máquinas; 33% consideram também um percentual em perdas de produção; e 11% realizam rateios dos custos gerais de fabricação. De acordo com os dados analisados, a maioria das empresas tem um sistema de custos de natureza primitiva, ou seja, a maioria das informações geradas por estes sistemas não orientam consistentemente o processo decisório para uma formação eficaz do preço de venda dos produtos.

 

Dessa forma, além de verificar, através dos dados, que a maioria das empresas do setor não dispõem de um sistema de custos, elas estão muito distante de um modelo de gerenciamento que o mercado competitivo exige.

 

Com relação as decisões financeiras, constatou-se que as empresas do setor de calçados em estudo, gerenciam de forma inadequada as informações financeiras, no que se refere à tomada de decisões para diminuir os custos, na obtenção de descontos dos fornecedores e na formulação do preço de venda.

 

Observa-se que todas essas decisões influem diretamente na cadeia do valor do setor de calçados, em forma de redução dos custos fabricados, estabelecendo o preço de venda, que vai se refletir na obtenção e concessão de descontos para o consumidor final. Porém, cada valor agregado ao produto deve ser eficientemente gerenciado através da utilização de informações para o processo de tomada de decisão.

 

6.2. DECISÃO SOBRE O PREÇO

 

De acordo com COBRA (1997), o preço é ainda hoje, na realidade brasileira, o principal fator do composto mercadológico. O preço é o responsável direto pela receita de vendas, os outros são os custos de fabricação, distribuição e a própria concorrência. Verificou-se que a estratégia de estabelecimento na decisão sobre o preço nas empresas diagnosticadas está relacionada, principalmente, com informações sobre: o preço dos produtos dos concorrentes; participação no mercado; qualidade dos produtos concorrentes e perfil do consumidor alvo (veja gráfico 2).


 

 

 

 

 

 

GRÁFICO 2 – Informações sobre a Decisão do Preço

Fonte: Pesquisa direta.

 

Nota-se que as empresas estabelecem seus preços de venda principalmente em função dos critérios adotados pela concorrência. Dessa forma, a decisão de monitorar as informações de mercado se torna essencial para este modelo de decisão.

 

A dinâmica competitiva do setor não possibilita usar uma estratégia de preços a longo prazo. Assim, as empresas não se preocupam em determinar com uma maior margem de segurança os custos de fabricação e controlar sua margem de lucro. Outras razões podem ser consideradas para o uso do empirismo no setor. A maioria das empresas é de origem familiar e não tem a preocupação com sistemas mais científicos de controle de custos e formação de preços de venda.

 

7.      CONCLUSÕES

 

A determinação de preço envolve diversas pressões e múltiplos interesses ora ascendentes, ora descendentes. Se o preço do produto não for atrativo para o mercado consumidor sua demanda encolherá; na outra ponta do processo, o consumidor certamente procurará uma melhor relação entre preço e qualidade do produto.

 

Isto posto, é necessário frisar que as empresas calçadistas de pequeno e médio porte seguem uma estratégia imitativa das grandes organizações do setor. Entretanto, a vulnerabilidade dessa estratégia é o ponto fraco daquelas empresas, porque as grandes empresas possuem economias de escala (as quais bloqueiam o ingresso de novos entrantes no mercado) e custos de produção mais baixos advindos de produtos que tem cada vez mais um teor tecnológico elevado, procedimentos que asseguram um melhor desempenho competitivo das grandes empresas no mercado.

 

Por outro lado, a baixa efetividade no gerenciamento das informações administrativas é preocupante. Não pela ausência de informações para a tomada de decisão de sistematização do comportamento organizacional e sim pela falta de um gerenciamento mais científico. O empirismo e o compartilhamento dessas informações entre os concorrentes são formas comuns de socialização do conhecimento do setor.

 

De acordo com o verificado, outro ponto que causa apreensão é com relação à estipulação do preço de venda a partir dos preços dos concorrentes, os quais têm uma grande influência no preço do produto fabricado. Não obstante, a maioria das empresas não tem um sistema que possa comparar a estrutura de custos com o preço fixado pelos concorrentes. Desta forma, o empresariado é levado, baseado no empirismo, a adotar um preço próximo dos concorrentes. Isto é, a qualidade da decisão não é eficaz por falta de maior precisão sobre o comportamento dos custos.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

ACKOFF, Russel. Planejamento empresarial. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1974.

ALLORA, Valerio, GANTZEL, Gerson. Revolução nos custos. Salvador: Casa da Qualidade, 1996.

ASSEF, Roberto. Guia prático de formação de preços; aspectos mercadológicos, tributários e financeiros para pequenas e médias empresas. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

BERNARDI, Luiz Antônio. Política e formação de preços; uma abordagem competitiva sistêmica e integrada. São Paulo: Atlas, 1996.

BIO, Sérgio Rodrigues. Sistemas de informação; um enfoque gerencial. São Paulo: Atlas, 1985.

BRASIL, MICT – MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA, DO COMÉRCIO E DO TURISMO/ SECRETARIA DE POLÍTICA INDUSTRIAL. Ações setoriais para o aumento da competitividade da indústria brasileira; XV – couro e calçados. 7p. 1988?. [on line] Disponível na internet via www. URL: http://www.mict.gov.br/spi/asac/asac0515.htm. Arquivo capturado em 22 de maio de 1998.

COBRA, Marcos. Marketing básico; uma abordagem brasileira. 4 ed. São Paulo: Atlas, 1997.

CONSELHO REGIONAL DE CONTABILIDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO. Curso de contabilidade gerencial – 6. IBRACON. 2 ed. São Paulo: Atlas, 1997.

DAVIS, G.B.. Management information systems; conceptual foundations, structure and development. Tokyo: McGraw-Hill, 1974.

DRUCKER, P. As novas realidades; no governo, na política, na economia, nas empresas, na sociedade e na visão do mundo. São Paulo: Pioneira, 1989.

FELINTO, Arturo Rodrigues. Relevância das informações em um SIG para a gestão do desempenho operacional; um estudo de caso. João Pessoa: 2000. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção - UFPB).

FLORES, Álvaro. O ciclo de vida do calçado. Revista Tecnicouro, Novo Hamburgo, v. 17, n. 7, novembro/1995.

KAPLAN, Robert S. Measures for manufacturing excellence. Boston: Harvard Business School, 1990.

OLIVEIRA, Djalma de Pinho R. de. Sistemas de informações gerenciais; estratégicas, táticas, operacionais. São Paulo: Atlas, 1992.

SILVA, Geraldo Luiz F. Gestão da informação no setor calçadista de Campina Grande. João Pessoa: 2000. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção - UFPB).

TUBINO, Dálvio Ferrari. Manual de planejamento e controle da produção. São Paulo: Atlas, 1997.

 

Copyright © 1998, CueroAmerica ®. Todos los derechos reservados.