GESTÃO AMBIENTAL SOB À ÓTICA DOS CUSTOS

 

George Queiroga Estrela* – Mestrando em Engenharia de Produção/UFPB

Maria Silene A. Leite – Doutoranda em Engenharia de Produção/UFSC

 

Resumo

 

Este artigo tem por objetivo mostrar a importância da implantação de uma Estação de Tratamento de Efluentes (E.T.E.) na indústria de curtume, apresentando a relação entre seus custos totais e os custos decorrentes de implantação de uma E.T.E.. Entretanto, a busca de tecnologias cada vez mais limpas, do ponto de vista do meio ambiente é um dever constante das empresas no desenvolvimento de produtos e processos em todos os segmentos industriais. A gestão ambiental se firma à medida que se oferece retorno, como eliminação de desperdícios e ganhos de competitividade. Esse mercado deve crescer no momento que se passar a encarar o meio ambiente como investimento e não como despesa.

 

1. INTRODUÇÃO

O notável crescimento na degradação dos recursos ambientais que se observou nas últimas décadas advém, em larga medida, da incapacidade dos sistemas econômicos modernos de garantir e estimular o uso eficiente desses recursos (água limpa, ar puro, biodiversidade, etc.). As principais conseqüências da inexistência de mercados para recursos naturais são sua alocação ineficiente e as exterioridades negativas.

 

Diz-se que há uma exterioridade negativa quando um agente impõe um custo a outro sem que tenha de pagar por isso. A poluição é um exemplo mais notável de exterioridade negativa – a empresa poluidora não incorre em nenhum custo adicional pela diminuição de bem-estar ou pela redução na produtividade de outras empresas causado pela poluição. Não tendo que interiorizar o custo provocado por sua poluição, a empresa acabará poluindo além daquilo que seria admitido do ponto de vista social.

 

Apesar destes acontecimentos, nos últimos quarenta anos, a indústria mundial vem se engajando na busca pela qualidade e produtividade. De forma a orientar as indústrias a se estruturarem para esta jornada, surgiram, em 1987, as Normas ISO Série 9000, que versam sobre o Sistema de Gestão da Qualidade. Neste contexto, porém mais recentemente surgiram, em 1996 as Normas que visam a implantação do assim chamado, Sistema de Gestão Ambiental, ISO 14000 baseada numa norma inglesa a BS 7750.

 

A ISO 14000 compreende seis áreas: sistema de auditoria ambiental (o constante acompanhamento do processo), norma de gestão ambiental (mapea a forma como a empresa executa as normas), avaliação do desempenho ambiental antes do momento da certificação, classificação ambiental de todos os processos e produtos, avaliação do ciclo de vida do produto e seus refugos, transparência da empresa para análise dos aspectos ambientais por entidades certificadoras a qualquer momento.

 

É importante ressaltar que a existência das normas e padrões pressupõe a possibilidades de monitoramento por parte das autoridades que têm o poder de impor multas aos infratores. Quando esse poder de enforcement[1] não existe, o único incentivo para o cumprimento das normas é a consciência social ou a exigência do próprio mercado.

 

A preocupação com os aspectos ambientais da produção, por parte do governo e pela sociedade civil organizada, expressa através de instrumentos legais, tem gerado uma nova demanda às empresas. A visão que se estabeleceu nas empresas era de que bastaria atender aos padrões e requisitos legais. Diante disto, passou a existir um conflito permanente entre a sociedade civil organizada e as empresas quanto aos padrões adequados. O argumento das empresas para minimizar as exigências de padrões ambientais cada vez mais restritos e a de que o atendimento desses padrões impunham custos crescente, prejudicando sua competitividade.

 

Dados obtidos nas pesquisas de PORTER&LINDE (1995) mostram que o debate entre competitividade e o meio ambiente tem sido abordado de modo equívoco sempre que se colocam os custos ambientais como um entrave à competitividade, ou seja, sempre que não se considera o papel das inovações para reverter esses custos em benefícios. Estes autores afirmam que as novas tecnologias ou inovações relacionam-se a questão ambiental minimizando o custo dos danos ambientais, quando eles ocorrem, ou indo “direto as raízes da poluição, aumentando a produtividade dos recursos em primeiro lugar”. Assim as inovações para ajuste à regulamentação ambiental podem resultar em economia de tempo e dinheiro.

 

2.      DIAGNÓSTICO DA EMPRESA

 

Neste item mostra-se detalhadamente como está composta a empresa quanto ao processo produtivo e quanto as suas características históricas e físicas.

 

2.1. Descrição da Empresa

 

Fundada na década de setenta, a empresa estudada, aqui cognominada de “Empresa X”, se constitui, atualmente, como uma das maiores indústria beneficiadora de couro do estado da Paraíba. Com uma capacidade de produção de 1.800 toneladas ao ano, porém, apesar desta quantidade este valor só representa apenas 0,41% de toda produção nacional para exportação de couro wet-blue. A empresa hoje, apresenta um quadro de 76 funcionários. Basicamente, o processo produtivo da empresa é alimentado tanto por matéria-prima couro quanto por insumos químicos, as quais, depois de processadas em equipamentos apropriadas, da origem ao couro wet-blue. A figura 1 apresenta de forma genérica o processo produtivo da empresa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 1 - Fluxo geral da produção.

O processo de produção do couro curtido ao wet-blue é do tipo contínuo. Em face do processo produtivo utilizado pela empresa, o leiaute adotado é o departamental. O ponto mais crítico do processo produtivo da empresa diz respeito ao momento do processo de descarne, proporcionando o surgimento de não-conformidades e refugos, isto é decorrente da ociosidade do equipamento.

 

Recentemente, em função da necessidade de atualização tecnológica, a empresa, a partir de financiamentos obtidos junto à FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), passou a adquirir novos equipamentos, realizou um diagnóstico organizacional e contratou uma consultoria de marketing a fim de sintonizar a empresa com as demandas do mercado. Porém, a empresa ainda adota um PCP (Planejamento e Controle da Produção) tradicional, limitando-se a adotar, dentre as tecnologias de manufatura avançada, a ferramenta kanban[2] na manutenção de máquinas de produção.

 

A comercialização esta voltada tanto para o mercado interno como para o  externo. Sendo 60% direcionada para o mercado externo e apenas 40% para o mercado interno. O destino do couro no mercado externo se direciona a vários países como: Itália, Hong Kong, Cingapura, Portugal, China e Países Baixos. Porém, no mercado interno a produção é negociada tanto na região Nordeste, Sudeste e Sul.

 

2.2. Definição das Etapas do Processo Produtivo

 

A partir do fluxo geral da produção apresentado na figura 1, será apresentada a definição de cada etapa do processo produtivo.

 

· Remolho: é o reverdecimento, ou seja, é o tratamento de peles salgadas ou secas com água fria a fim de reidratá-las, tornando-as iguais a como eram sobre o animal vivo.

 

· Caleiro/Depilação: Caleiro - Tratamento de peles com cal suspensa em água, destinado ao intumescimento e desenvoltura das fibras da pele crua. Depilação - Processo químico no qual é procedida a remoção do cabelo ou pêlo das peles dos animais.

 

· Descarne: Eliminação da hipoderme (gorduras e impurezas). Depois que as peles são caleiradas e depiladas, se inicia o processo de descarne, que é realizado em máquina de descarnar.

 

· Descalcinação e Purga: Descalcinação - É o processo químico de remoção da cal de peles caleiradas. Purga - Tratamento enzimático das peles a fim de limpá-las de qualquer surjidade, aumentar a lisura da flor e conferir-lhes maior maciez.

 

· Píquel/Curtimento: Píquel - Tratamento salino-ácido das peles. Curtimento - É o processo que visa transformar as peles em material estável e imputrescível.

 

· Desague: Neste processo ocorre a retirada do excesso de água presente no couro, no qual é reduzido o teor de água que o couro apresenta de 60% para 45%.

 

· Divisão: A operação mecânica consiste no corte do couro em camadas longitudinais, obtendo com isto duas camadas: a superior, denominada flor e a inferior, denominada raspa.

 

· Classificação: Se processa manualmente a escolha dos couros em função dos defeitos, da espessura, do tamanho e em função do artigo definido.

 

· Medição: Etapa onde se realiza a medição e codificação do artigo acabado.

 

Tendo como base o escopo do processo produtivo, verifica-se a importância de analisar os impactos ambientais proporcionado pelo processo beneficiamento do couro wet-blue. De acordo com COMPASSI (1995), num curtume cada tonelada de couro gera 600 kg de resíduos (lodo da E.T.E., recortes, serragem de rebaixadeiras, tambores, bombonas, etc.).

 

2.3. Impactos Ambientais

 

A poluição causada pelos curtumes está relacionada diretamente a uma grande geração de efluentes líquidos e resíduos sólidos, que podem provocar a contaminação do solo e das águas e geração de odores.

 

O curtume que realiza as operações do couro wet-blue (caso da empresa em análise) proporciona a maior carga poluidora, tanto de efluentes líquidos como sólidos, causando elevados impactos ambientais quando não tratados.

 

Os principais impactos ambientais causados pela indústria de curtume são:

 

a) Geração de efluentes líquidos

 

A geração de efluente varia de acordo com cada etapa da produção; também há grande variação de curtume para curtume, dependendo dos processos industriais utilizados, a empresa em estudo trabalha até o processo wet-blue.

 

Na operação de remolho, ocorre a dissolução do sal (cloreto de sódio). O sangue e outras substâncias orgânicas também constituem carga orgânica no efluente. O caleiro residual contém matéria orgânica em grande quantidade (proteínas), cal e sulfeto. As operações seguintes, depilação, purga, piquelagem e curtimento, produzem uma poluição salina e/ou tóxica (cromo).

 

As principais características dos efluente líquidos gerados nos curtumes são:

 

 

b) Geração de resíduos sólidos

 

Os resíduos sólidos gerados nos curtumes compreendem os resíduos sólidos não curtidos representados por: carnaça, aparas não caleadas, aparas caleadas e aparas do couro dividido; os resíduos sólidos curtidos, compreendem: aparas do couro curtido; pó de lixadeira e serragem da operação de rebaixamento; e por fim o lodo gerado no tratamento de efluentes líquidos.

 

c) Geração de poluentes atmosféricos

 

São gerados nos curtumes, gases e vapores dos banhos, que saem dos fulões, especialmente quando estes são abertos para retirada da carga após o curtimento.

 

O problema mais grave de poluição atmosférica produzida nas plantas de curtimento refere-se à geração de odores, que ocorre especialmente na decomposição de matéria orgânica presente nos resíduos e efluentes.

 

3.      ANÁLISE DOS CUSTOS DA EMPRESA EM ESTUDO SEM ESTAÇÃO  DE TRATAMENTO DE EFLUENTES (E.T.E.)

 

Inicialmente definiu-se o processo, para posteriormente, identificar as etapas correspondentes. O processo é composto de:

 

 

Analisou-se, apenas o setor produtivo da empresa, uma vez definidas as etapas para desenvolvimento do couro wet-blue, determinou-se qual o percentual de tempo destinado à realização de cada uma das etapas, bem como a energia consumida, os insumos químicos utilizados, o custo da depreciação proporcionado por hora trabalhada, a quantidade de água empregada e a manutenção desenvolvida, para então obter-se o respectivo valor monetário (custo) gerado na produção para o beneficiamento do couro. Utilizou-se de tabelas demonstrativas, mostrando o cálculo do custo apenas do processo de beneficiamento do couro, no qual se fez um levantamento dos recursos que são gerados para custeamento de cada etapa do processo, como:

 

 

A tabela 1 mostra  de forma geral os custos gerados para se produzir 176 toneladas/mês que estão divididos da seguinte forma.

 

Itens

Valor do Montante (R$)

Mão-de-obra Direta e Encargos Sociais

16.255,36

Depreciação

946,22

Manutenção

518,10

Insumos Químicos

34.449,50

Energia

1.549,90

Água

2.414,94

Matéria-Prima (couro)

211.200,00

Custos Indiretos

53.466,80

Total

320.800,82

Tabela 1: Custos gerados na produção 176 ton./mês

Fonte: Pesquisa Realizada, 2000.

 

Os custos indiretos são estimados em 20% dos custos totais, já que não há métodos específicos de gestão dos custos indiretos na empresa em estudo.

 

A tabela 2 mostra os custos concebidos em cada etapa do processo de beneficiamento do couro para se produzir 176 toneladas/mês que estão distribuídos em cada setor de produção.

 

PROCESSO

Mod./Enc.

Deprec.

Manut.

Ins. Quím.

M.P. Couro

Energia

Água

Total (R$)

REMOLHO

2.875,84

169,84

62,48

830,72

211.200,00

133,32

1.380,06

216.652,26

CALEIRO

3.221,68

122,98

39,38

1.861,42

211.200,00

48,18

246,40

216.740,04

DESCARNE

1.799,16

76,78

55,88

-

211.200,00

182,60

-

213.314,42

DESCAL/PURGA

1.263,68

81,40

27,72

5.506,16

211.200,00

153,12

492,80

218.724,88

PIQUEL/CURT.

1.540,88

380,16

286,44

26.250,32

211.200,00

719,40

295,68

240.672,88

DESAGUE

2.951,08

29,26

11,00

-

211.200,00

177,10

-

214.368,44

DIVISÃO

1.210,88

61,16

26,40

-

211.200,00

125,40

-

212.623,84

CLASSIFICAÇÃO

1.181,84

4,18

1,54

-

211.200,00

1,32

-

212.388,88

MEDIÇÃO

210,32

20,46

7,26

0,88

211.200,00

9,46

-

211.448,38

TOTAL

16.255,36

946,22

518,10

34.449,50

211.200,00

1.549,90

2.414,94

267.334,02

Tabela 2: Custos em cada etapa do processo de beneficiamento do couro.

Fonte:  Pesquisa Realizada, 2000.

 

As preocupações ambientais têm um papel relevante no cotidiano de um curtidor. A empresa vêm fazendo atualmente esforços redobrados para tentar conservar o meio ambiente, apesar de não existir uma Estação de Tratamento de Efluentes, mas tem utilizado produtos biodegradáveis, enzimas, etc.

 

Por outro lado, as regulamentações internacionais, amplamente divergentes sobre a descarga de águas residuais e de expulsão de gases, tem provocado uma reengenharia na forma de pensar na classe empresarial deste setor. Mas evidentemente, as vezes é muito difícil para o curtidor, nos dia de hoje, encarar o equilíbrio entre a economia e a ecologia, porém, este será o grade desafio da empresa em estudo neste novo milênio.

 

 

4.      ANÁLISE DOS CUSTOS DE UMA E.T.E. (ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE EFLUENTES) NUMA EMPRESA

 

Nos últimos anos a questão ambiental tem “tirado o sono” de muitos empresários, e pior, há tempo que o problema “resíduos” provoca pânico em muitas empresas, chegando mesmo a provocar o fechamento de forma precipitada de algumas delas. Porém não é mais admissível adiar a decisão de bem gerenciar a questão ambiental de cada empresa, com riscos de se amargar pesadas sanções dos órgão ambientais e também ver seus produtos fora de muitos mercados por causa das “barreiras comerciais”.

 

Assim, é inevitável e urgente a adoção de um planejamento estratégico ambiental, que possibilite encaminhar soluções adequadas para cada resíduo, de forma definitiva, a custos compatíveis com o recursos de cada empresa e com as dificuldades globais do momento presente.

 

O processo de tratamento dos efluentes líquidos aplicáveis aos curtumes podem ser os seguintes: tratamento primário: compreende o gradeamento, mistura e homogeneização, retenção de sebo e lançamento em vazão regularizada; tratamento primário: é realizado por meio do tratamento preliminar, seguido de coagulação, floculação e decantação, com remoção do lodo do fundo dos decantadores, de forma manual ou mecanizada; tratamento secundário: envolve a diminuição da carga orgânica, por processos como lodos ativados, valos de oxidação, lagoas aeradas, facultativas, etc.; tratamento final: é aquele que confere melhor aspecto à aparência, removendo a coloração do efluente final.

 

Considerando todos estes aspectos, os custos nas tabelas abaixo apresenta as seguintes características:

 

1)      Nos custos de implantação estão incluídos:

 

 

2)      Destes custos estão incluídos:

 

 

3)      Nos custos operacionais estão incluídos: